Uma das mais agradáveis surpresas...

(Sobre La cruz de ceniza) Uma das mais agradáveis surpresas de meu ano literário, A cruz de cinza é um livro que chegou às minhas mãos quase por acaso, numa compra de impulso. Lançado no Brasil em 10 de outubro de 2008 pela editora Record, este romance histórico conta das andanças de Baltasar Sachs e Hans Gotha, além das desventuras de Paulette, através da loucura religiosa que foi o século XVI.
Para os autores, esta é uma história de iniciação, sendo a religião o personagem principal, utilizada como desculpa para desmandos e atrocidades, traições e escaladas ao poder, num mundo desacorçoado por mudanças repentinas. Sua intenção ao escrever o livro era a de «refrescar a memória da loucura», uma reflexão sobre o fracasso da religião como justificação do poder de um homem, como vemos ainda hoje, neste nosso mundo coberto de guerras religiosas.
O ápice do romance se dá com a instituição do reino messiânico de Münster, nascido de um grupo de anabatistas, hereges que viviam em comunidade, no o real sentido da palavra, uns ajudando aos outros, constituindo uma pequena ilha de tolerância no mar agitado das guerras entre cristãos e protestantes de várias vertentes. A história encontra um de seus momentos mais interessantes no retrato da degradação desta comunidade, com o aparecimento de um líder de moral escusa, mas belo e carismático. (estranho como essa história se repete…)
Além da bela descrição da Alemanha do século XVI, Luis Astorga e Fran Zabaleta se destacam por criar personagens e situações de uma realidade e profundidade impressionantes, com tantas matizes que, apesar de nos identificarmos com facilidade a Hans, Paulette e Baltasar, não podemos dizer realmente quem são os “maus” nessa história. Se é que pecam em alguma coisa, não é no maniqueísmo.
Luis Astorga é homem do mar, e Fran Zabaleta é historiador e geógrafo, e juntos, após 5 anos e mais de 1600 páginas no manuscrito original (magicamente resumidas para 616), nos levam aos recônditos mais escuros da história da religião, seus miasmas e pústulas, e do absurdo de certas reações humanas aos mais diferentes ideários. Um belo relato do supra-sumo da ignorância religiosa.